Selecionei alguns de seus poemas, e hei de publicá-los também aqui...
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| Romildo Ernesto Mendes e seu pai, o Dr. Romildo Borges Mendes |
Romildo Ernesto Mendes é educador, teatrólogo, poeta, literato, historiador, professor, artista plástico e um incentivador (militante) do teatro nas escolas.
Nascente Lacrada
Não quero mais fazer poesia.
Fecharei a nascente dos meus poemas.
Sempre eclodem da dor da perda constante.
São pistas fáceis de minha amargura.
Gostaria de cantar a ternura dos amantes.
Proclamar a alegria das crianças inocentes.
Declamar a sabedoria antecipada dos jovens.
E constatar a “serenidade" dos idosos.
Poesia? Não, não quero mais.
Pelo menos, por enquanto.
Neste momento, quero curtir estrelas.
Palmilhar trilhas desconhecidas, ignoradas, estranhas.
Só se a esperança despertar.
Só se a desconfiança for banida da face da terra.
Se, por acaso, a alegria suplantar a tristeza.
E, se a verdade e o AMOR financiarem a JUSTIÇA.
Há possibilidade de eu ainda produzir versos!
Versos insolentes, descortinando o desabrochar das margaridas.
Versos que descrevam o contorcer dos girassóis em busca do sol.
Versarei, ao perceber, o dialogar das estrelas, novamente.
Romildo Ernesto Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 03-05-2009
O Lusco-Fusco das Derradeiras Centelhas de Vida
Contemplo, sorrindo enamorado,
O estreito e ladeiroso caminho,
Que fagulhento de amor se alumia,
Para o deslanchar sereno
Do atento andarilho peregrino.
Caminheiro ou andarilho,
Senhor do próprio destino,
De repente, com passos ligeiros,
Apressado toca o solo enluarado,
Tentando reacender
As derradeiras centelhas de vida,
Que aceleradas, sem dar satisfação,
Desgastadas declinam.
REL Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 30-11-2011
Colhendo as delicadezas de cada dia...
Ao atentar no galopar da vida,
Percebi que os dias se esvaem ligeiros
À parecença d’água, pelas mãos, recolhida
Que despercebida, rápida goteja abusada,
Por entre as frestas dos entreabertos dedos.
Então, antes que a finitude desta vida
Determine o término de meus dias,
Sorverei, sem escrúpulos,
Cada momento vivido,
Cerzindo, com tamanha nudez criativa,
Os retalhos de alegria,
Pra conseguir, bólido,
Fustigar “coisas miúdas”
Que impedem degustar o regalo
De elaborar, em plenitude,
A colcha de ternura
Que me embrulha a cada dia.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 19-01-2012
Navegando solitário pelo revolto mar da indecisão...
Mochila, nas costas,
Displicentemente, pendurada,
Repleta de múltiplos sonhos sedutores.
Cabeça fervilhando de incertos caminhos,
Na mente, pela imaginação delineados,
Que prestes a ser percorridos
A qualquer momento,
Requer rápida decisão...
Ir embora ou permanecer,
Eis a terrível questão...
Como deixar de usufruir o já obtido?
Se desvencilhar do materno afeto,
Abandonar o boteco da esquina
Onde se beberica
Nas cálidas noites de verão?
Ah! Essa, não!
Já pensou em largar pra traz
Os saborosos lábios da cabocla
Que da janela daquela varanda amarela,
Ao pôr do sol, ávidos de beijos,
De graça, ela se põe a ofertar?
Oh! Que louca abominação!
Que revolto mar de indecisão!
Optar, talvez seja,
No transcorrer do dia-a-dia,
O que de mais difícil na vida há...
Mas como ampliar horizontes?
Como deixar de ser menino,
Sem partir, sei lá pra onde;
Sem alçar voo, pro infinito ofuscante;
Sem galgar montanhas, em busca de sonhos;
Sem se desviar, pelos caminhos percorridos;
Sem se distrair envolvido
Pelo abusado encantamento das cunhantãs?
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 10-01-2012
Talvez a culpa seja do vento...
Numa preguiçosa tarde morna de verão,
Uma golfada furiosa de vento
Se lança inesperada contra as vidraças
Das janelas da minha varanda
Acordando-me da sesta às pressas.
O que é costume indispensável
Neste agreste sertão.
Ah! Violento, o vento
Despertou-me também lembranças...
Lembranças cuidadosamente escondidas,
Por detrás de rotas máscaras
Que como cortinas, lá dentro,
No fundo d`alma as resguardava.
Me parecem envolvidas,
Na fumaça do incenso da esperança.
Incenso que, nas “Vésperas” celebradas
Na capela do monastério,
Abundante exalava...
Mas o louco vento inconsequente,
Sem pudor, desnudou as secretas lembranças,
Expondo-as desvestidas ao vexame
De verem, novamente dissecados,
Os desavergonhados detalhes
Por mim, outrora,
Já exaustivamente degustados...
Então consenti relaxado
Ao debochado vento,
Que, bem lá de dentro, as extraísse
Só pra saciar meu guloso apetite
De querer, novamente, n`alma
Degustar escondido cada momento,
Que já lá atrás, um dia
Saboreei avidamente,
Até, todo me lambuzar satisfeito
De discreta e transcendente alegria...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 24-01-2012
De repente uma Tímida Fantasia
Soa a campainha!
Atendo...
Eras tu!
Pediste água com um terno sorriso.
Dei-te também meu coração.
Inquiriste-me, naquela tarde de domingo:
Amas alguém?
Amo!
Só não lhe revelei quem.
Profunda tristeza cobriu-lhe a face...
Partiu, sem saber,
Que por ela me apaixonei.
Nunca mais a vi.
Só sei que, de repente, a amei!
Montes Claros, Minas Gerais, 26-11-2011
Forasteiro Peregrino
Nestas paisagens agrestes,
Sou apenas um forasteiro peregrino
Sem espaço na varanda
Dos nativos da região.
Mas, apesar de tudo,
Contemplei a beleza e
O frescor de algumas “veredas”!
Montes Claros, Minas Gerais, 21 de novembro de 2011
Apenas
Há um século não nos vemos.
E sábado passado,
repousava no meu regaço!
Tudo era carinho.
Nenhuma promessa.
“Te vejo amanhã?”
“Não! Voltarei no fim da semana.”
Últimas palavras que o sol testemunhou.
Vem!
Deixa-me respirar a tua presença,
apenas.
REL Mendes
São Paulo, SP, 22-03-1984
PROFECIA
Não veio devagar,
Simplesmente, abriu a porta.
Ternamente, ocupou o lugar,
Desde sempre seu.
Não chegou cedo,
Nem tarde.
Veio !
Abraçou-me e ficou!
Meu peito no seu.
Minha alma na sua.
A noite acolheu!
A madrugada declarou conivência.
Sussurrando a estrela estabeleceu:
O encontro-silêncio é teu;
O eterno momento do cosmos!
REL Mendes
São Paulo, SP, 18-04-1986
Um saveiro de versos para os campos dourados do Tocantins
O saveiro dos meus versos
singra sereno nas águas caudalosas das lembranças
sob o impulso da esperança
de que não soçobre jamais
na vereda de meus sonhos.
Ah! Deixa que o saveiro de meus versos
percorra o trajeto de corações curiosos
e, depois, bólido, parta em busca de outros
que vigiando ansiosos o esperam.
Deixa que o saveiro de meus versos
Resvale em qualquer lugar,
saciando e ungindo
com melódicas estrofes poéticas,
àqueles que desejam por elas se besuntar .
Enfim, deixa que o saveiro de meus versos
velejando num mar de ternura,
lentamente, atraque nos campos de “Capim Dourado”
no “Jalapão do Tocantins”,
onde repousam minhas recordações
e uma saudade sem fim.
Romildo Ernesto Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 08-08-2011
Somente Flores do Araguaia
Desvestido de inspiração,
abri a janela da varanda
pra contemplar a belezura do ipê lilás.
Talvez, aplaque a ira da musa.
Instigando-a, prorrompi em lembranças
e resvalei por entre recordações.
Enxerguei a descida íngrime
da Rua Caiubi
e deparei-me com a porta
que, durante anos, abri.
Ah! A porta do apartamento,
onde vivi revestido de flores do campo
e contornado pelo frescor do Araguaia distante.
Simples flores do cerrado.
Flores douradas de ternura
ao amanhecer.
Flores silvestres prateadas pelo luar,
que delicadamente iluminava
o frágil rastro de meus sonhos.
REL Mendes
04-07-2010
Fecunda instabilidade
Dizem que sou instável.
Claro! Nasci na beira do mar.
Num constante vai e vem,
Despejo-me sem censuras nas areias da vida
Gosto de ser precursor do que virá.
Anseio trazer a tona o escondido no futuro.
Magôo e sou magoado.
Mas, juntos, realizamos.
Romildo Ernesto Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 13-06-2006
O Menino e o Corredor
No fluxo e refluxo
da maré de amargas recordações
da infância,
sempre defronto-me
com dois longos corredores.
No corredor do abrigo no interior,
deslizava-me perplexo
entre a sala de visitas e o fundo do quintal
até a exaustão física e mental.
Corria, gritava,
meneava a cabeça de um lado para o outro,
tentando estancar
o suspiro ávido dos amantes!
No corredor da capital,
permanecia estático,
inerte e estupefato.
A porta entreaberta enfraquecia a inocência
e estilhaçava a perspectiva de pureza.
Fugir, sem pestanejar,
era o desejo imediato.
Anelo impossível!
Obstáculos intrasponiveis:
à direita um coati selvagem;
à esquerda uma janela no terceiro andar.
Quero evadir-me, não posso!
Nenhum ‘bando de pássaros selvagens passou por ali”.
Embora, minha rosa fosse falsa,
eu não era o “Pequeno Príncipe”.
Montes Claros, Minas Gerais, 02-05-2009
Regressão
No crepúsculo da vida,
busco fantasmas da infância,
no baú das recordações.
Neste forçar, retorno à meninice
e defronto-me com o portão do fundo do quintal.
Se abro o velho portão,
deparo-me com o rio Jaguaribe!
Ora exuberante, se no chuvoso inverno nordestino,
Ora evaporado e ressequido,
ostentando o leito arenoso,
durante a estiagem longa...
Se abrem o tal portão,
estanco perplexo e frágil !
Há sempre possibilidade de devassidão,
segundo a fantasia pueril.
Portão de fugas ingênuas e outras escapadelas...
Portão, portal surrupiador de sonhos ternos de crianças.
Ainda hoje, o velho portão me apavora,
me enternece,
me entristece.
Montes Claros, Minas Gerais, 29-04-2009
Desabafo
Lancei fora preciosas lágrimas
extraídas da falsa ou real sensação
de ter sido traído.
Penso que
as raízes de minha inquietude e tristeza constantes,
estão cravadas na perda forçada
da inocência pueril.
Mas não se perde
o que ainda não se adquiriu!
Culpo-me de ter perdido,
quando não tive condições de a cultivar.
Destroçaram-na e lesaram-me!
Codifiquei errado
o “não sei quê” comunicado.
Arrastou-me a sedutora ilusão da união
que ninguém pode romper.
Busquei retomar a caminhada,
pois assim,
anseia o coração humano.
Reinventei novos caminhos,
na tentativa de ressarcir
os incomensuráveis prejuízos.
Tentaram roubar-me de mim!
Presentearam-me com a solidão.
Levanto-me e prossigo sozinho
o longo caminho da vida...
Sempre!
Montes Claros, Minas Gerais, 05-05-2009
Devaneador
Tentei poetizar lembranças...
Ruminei recordações...
Deslizei por entre lembranças
com delicada leveza,
receando ferir-me.
Cheguei a arranhar momentos de ternura.
Remeti-me a verdes pastagens:
Lembrei-me do capim molhado de sereno evaporado,
exalando odor de esperança.
Ouvi o chalrear de periquitos,
o palrear de papagaios
e o grasnar de jandaias,
anunciando o limiar do dia.
Sorvi a imagem de escura noite silenciosa,
violentada pelo bico aceso de uma lamparina de querosene,
descortinando um espaço útil
para a eclosão efêmera do ato de amor.
Desperdicei, na travessia do meu devaneio,
momentos com sentimentos de solidão, ansiedade e abandono
que se sucediam,
até esvanecer-me de cansaço
no catre tosco e pobre da minha infância.
Rompi, de repente, com a viagem pelo já vivido
e comecei a apressar a construção do futuro pretendido agora.
Montes Claros, Minas Gerais, 14-06-2010
Confronto
Eu sei dizer.
É bom que diga...
Mas não querem ouvir,
Não querem crescer,
Não querem pensar,
Não querem ser.
Por que iniciar uma cavalgada por onde já trilhei?
Não seria mais fácil,
partir de onde me encontro,
para o infinito desconhecido?
Eu sei dizer.
E por isso lhes digo:
o início é sempre agora;
o futuro é o presente seguinte.
A tristeza duradora - apenas instante.
A alegria eterna - semente da saudade.
Porque apressar o que vem?
Porque antecipar o ainda feto?
Bom é caminhar e caminhando seguir
para chegar,
para usufruir,
para viver,
para ser,
para não morrer.
Montes Claros, Minas Gerais, 18 de dezembro de 1981
O Complexo Eu
Da poesia nasceu você.
Encanto de utopia infantil.
Solidão – saudade da ausência - presente.
Desilusão de não ser amado.
Canto o inexplicável.
Sinto o injustificável.
Capto a alegria da esperança!
Acho que me perdi,
porque te perdi.
Falo, digo, reclamo...
Não compreendo!
É anseio vazio de tua presença ausente.
Perco-me na solidão!
Desespero,
desejando ser eu,
em mim e no universo das criaturas.
Montes Claros, Minas Gerais, 30 de janeiro de 1976
Quem será a garota de Sacramento?
Deliberadamente,
Resvalei no passado
Por entre lembranças,
Que solfejaram melodiosos
Acordes de saudade.
Quase com precisão,
Delinearam o lívido espectro
Da bela menina-moça,
Que na adolescência
Foi meu primeiro amor...
Ah! Um devaneio de criança
Que nunca declinarei o nome.
Sagrado segredo de menino
Que ainda criança vivenciou,
Lá em Sacramento,
Já na infância,
Um intenso quase amor platônico.
Mas, quem será essa garota de Sacramento?
Só ela sabe quem é...
(O acordeom também)
Um bibelô bem resguardado,
Por três cuidadosas aias,
Cônscias da formosura,
Da bela menina-moça,
Precioso projeto de futura mulher...
Por ela,
Em agonia,
Na época,
Transformei as noites,
Ansioso esperando
O demorado raiar do dia.
Só pra bem cedinho,
Escanchado nas grades da varanda
Do velho casarão da escola,
Esperar chegar faceira
A formosa gazela de Sacramento...
Ela subia os degraus da escadaria,
Com delicada leveza,
Mais se parecia a uma bela garça
Pousando serena e garbosa
Nas quentes areias
Que circundavam as margens
De um ribeirão pequeno,
Lá em Sacramento...
Ribeirão ou córrego
De águas cristalinas,
Que a parecença dela,
A cidade toda abastecia
De frescor e alegria.
Ela, puro encantamento!
O ribeirão, agora sacia
A alma do ancião-menino,
Que caminhando cansado
Tenta, insistentemente,
Poetizar lembranças da juventude,
Ainda hoje, não esquecidas...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, MG, 26-01-2012
“Pegadas” e amores de outrora...
Ah! Já tive muitos amores,
Bem o sabe, o mundo inteiro!
Muitos, só passageiros desvarios...
Marombas, de impetuoso jovem inconseqüente,
Incapaz de reter efêmeros arroubos
Da incontrolável libido,
Que, vez por outra, enlouquecida
Aflorava descontrolada...
-Ah! Quantos beijos roubados,
Num falso lapso de descuido,
Que elas, fingindo constrangidas,
Ligeiras deles, com suave empurrão,
Se esgueiravam sorrateiras...
-Oh! Mãos abusadas,
Pelas costas macias e desnudas,
Deslizavam curiosas,
Cheias de esperteza...
Meu Deus!
Como era maroto o nariz!
Inalava ávido o hálito,
De propósito, exalado,
Pelas bocas aveludadas,
Que de graça o ofereciam.
O bendito nariz ainda
Cheirava profundo
As enrubescidas cútis,
Que deliberadas, com sutil elegância,
Delicadas valsando se ofertavam
Perfumadas...
Outros, puros devaneios platônicos,
Fantasias da imaginação de menino,
Que, de repente, surgiam
E com a mesma rapidez,
Em pouco tempo,
No mundo encantado dos sonhos
Com facilidade se diluíam...
Mas alguns outros amores
Prorromperam abusados
Pra esculhambar o peito.
Fincaram no tempo estacas de saudade,
Pra ungir de lembranças
A eternidade de alguns momentos,
Que, ainda hoje, serpenteiam
O desenrolar de meus dias...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, MG, 05-02-2012
Quimera, quase um nome de mulher...
Um grãozinho de esperança
Que desabrocha em sorrisos,
Vivacidade, matreirice jocosa
E uma certa inteligência
Que já se dava a perceber.
Olhos de alegria
E discutível inocência...
Face de futuro promissor
Que não presenciei o acontecer...
Não a vi crescer,
Nem acompanhei
O desabrochar dela,
Menina moça, ocorrer.
Só sei que é mãe
E uma bela mulher...
Vicissitudes da vida
Me forçaram partir.
Só semeei ternos sonhos,
Mas não os vislumbrei florescer...
Pena! Se bem me recordo,
Também não os pude colher...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros-MG, (Reformulada em) 26-01-2012
O segredo do AMOR que nunca termina...
Calado,
Atento observo
O palmilhar sorrateiro do amor
Que ziguezagueando se achega discreto,
Até envolver sereno
Os já, sem dúvida,
Por ele seduzidos.
Nada tem a ver com paixão
Que violenta,
Estupra o coração.
Mas é algo de divino
Desalinhavando habilidoso o tênue elo,
Que separa o humano do divino,
E une pra sempre os amantes,
Tecendo-os em vínculos de eternidade,
Alinhavados por consistentes teias
Da indispensável conivência.
Enfim, ajustando os acordes da alegria,
De sentimentos desafinados,
Tranquiliza os que ansiosamente esperam
Ser por ele agraciados...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 23-01-2012
VAZEI...
Vazei para não ver manipulada
A liberdade de ter passado,
A alegria de viver o presente
E a felicidade de sonhar futuro.
Vazei para esvaziar-me
Da ânsia do possuir
E lançar-me em busca do ser.
Vazei para conviver com a humanidade...
Vazei para partilhar com generosos
E carentes.
Vazei para evitar
A quase inevitável perda da luz interior
Que me faz ser.
Vazei para demarcar o território
Da minha dignidade.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 15 de novembro de 2011
Degustando liberdade
Límpida a liberdade impregna o ser,
Como pura água da nascente.
Despertar e permitir
Que o sol ilumine o corpo
E perpasse, por tênue fresta,
O recôndito da felicidade.
Levantar e sair sem destino.
Ir onde quer,
Por onde desejar.
Simplesmente,
Caminhar sem rumo.
Sentar e observar transeuntes,
Jogar papo fora ou silenciar,
Profundamente!
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 16-10-2006
Por onde andará Mariá?
O mais lindo rosto que conheci!
Delicada miosótis dourada
Que inesperada desabrochou discreta
No vadio asfalto,
Que sorrateiro recobria
A poeira do meu fantasioso caminho...
Mignon, sensível, acolhedora,
Uma inenarrável ternura de mulher,
Que tudo ao redor iluminava.
Só a perdi de vista,
Mas, dela,
Jamais me esqueci...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 05 de janeiro de 2012
Ouvindo o alvorecer
O sussurro do alvorecer
se faz poeticamente escutar,
ao pressentir os raios de sol,
que ameaçando rasgar o firmamento,
irão apagar as estrelas,
candelabros à noite acesos,
para pontilhar de luz a escuridão noturna
que o peregrino extasiado
insiste em contemplar.
Prorrompe o sussurro do alvorecer,
impondo o limiar de um novo dia,
anunciado pelo orquestrar de vozes animais,
no ar eclodindo.
Soa o cacarejar, paulatino e impertinente, do galo.
Multiplica-se o pipilar de pardais irrequietos.
Zune compassado o chilrear de periquitos
esvoaçando sincronizados no horizonte sem fim.
Intensificam-se o guinchar dos suínos famintos
e o mugir melancólico dos bovídeos.
Cessa, de imediato, o coaxar dos sapos,
que resilientes se ocultam
no sombreado de grossas folhas sobrepostas
nas hastes das multicoloridas bromélias,
transbordantes de sereno recolhido.
Ao clarear o horizonte infinito,
o sol abusado forçou partir saudosa a noite,
que fugindo, abandonou nas pontas do verde capim,
minúsculas gotas brilhantes de orvalho.
Talvez, lágrimas transparentes de sereno,
rastros delicados de quem forçada,
de súbito, teve que se retirar,
mesmo sem desejar ir.
Já agora, instalado o dia,
debruço-me nas asas da imaginação,
deixando-me palmilhar trilhas iluminadas
por entre touceiras de girassóis dourados e dourantes,
que balouçam desconjuntados
ao soçobrar da frígida brisa matinal.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 15-09-2011
Quem sabe Camila, um dia...
(in memoriam)
Quem sabe,
Na eternidade um dia,
Voltemos ao vento lançar
Pétalas de felicidade,
Em quem queira,
Do nosso reencontro,
Com alegria participar...
Quem sabe se um dia,
Quando a minha cabeça
Em teu regaço repousar,
Possa tua delicada mão,
Entrelaçando, por entre os dedos,
Meus longos cabelos negros afagar.
E quem sabe,
Se antes de eu, serenamente, adormecer,
Ainda tenha a feliz oportunidade
De te ouvir mais uma vez dizer:
“Nunca deixarei de amar você”.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 01 de janeiro de 2012
Lúcia, um súbito sonho de primavera...
De súbito,
A sala toda se iluminando,
Como que do nada, ela apareceu.
Bastou apenas o soar do cumprimento,
Pra que me envolvesse, por inteiro,
Num intenso clima de sedução.
Não hesitei!
Encantado,
Ofertei-lhe a passarela de meus sonhos
Pra que nela,
Faceira desfilando,
Me fizesse derramar pleno
De sublime fascinação...
O espelhar de lindos olhos verdes ou azuis,
Que não sei bem definir,
As mechadas madeixas loiras,
O magnífico porte de saborosa potranca,
Justifica o esbanjar supremo
De tanto encantamento...
Uma "nouveau riche" extravagante,
No falar, no agir
E no terno e agressivo modo de gostar.
Um diamante bruto de Andradina
Que não se deixava lapidar.
Se fez tão forte lembrança,
A iluminar a praça da apoteose
De minha desvairada imaginação,
Pois nem a batuta do tempo
Conseguiu dissipar tão bela presença,
Que o baú de minhas recordações
Insiste em preservar,
No âmago do meu ser...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 5 de janeiro de 2012
Lucidez Poética
Homenagem aos meus setenta (70) anos de idade.
Ao envelhecer,
meu rosto perdeu o viço da juventude.
Já não posso trapacear a idade
acumulada nos anos vividos.
Minha idade é facilmente notada
na face marcada pela ancianidade.
Ah! Mas, a intensidade dos sonhos
é a mesma, já degustada
pelo "porongo" de outrora.
Sonhos tressuados de devaneios,
tresvariados de doces
fantasias transitórias.
As rugas adquiridas,
nesses setenta anos percorridos,
atingiram a epiderme e
plissaram, profundamente,
minha individualidade metafísica.
Não entrelacei fios
de vínculos familiares.
Rejeitei a necessidade irrefutável
de silenciar segredinhos
de qualquer núcleo social.
Denunciei falcatruas testemunhadas.
Não camuflei defeitos pessoais.
Ah! Vivi intensamente
uma diversidade de emoções.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 13-03-2011
Uma refrescante “Vereda” na minha estrada...
Talvez uma quilombola...
Certamente, uma mulher!
Mascava fumo de rolo,
Odorando todo ambiente
Por ela percorrido.
Quera octogenária,
Se embiocava numa quimbembe,
Por uma absconsa, mal iluminada.
Por cunhãs, sempre circundada,
Pois, à sua porta, fervilhavam
Pra fuxicar e besuntar de conselhos
Dela derramados.
Um “taquinho de gente”!
Catatau feminino,
Que saltitava pelas ruas,
Rumo à igreja do Cintra,
Onde, freqüentemente, rezava.
No sovaco,
Uma sombrinha transportava,
Como se quiçama fosse.
Analfabeta,
Nem os xenxéms
Mensais distinguia.
Mas, considerada era
Tesouro de sabedoria.
Logo, acolheu-me como filho,
O que me encheu de alegria.
Um dia,
Após um aliviado suspiro,
Nhá Geralda do Cintra
Partiu serena.
Voando, rápida como um colibri,
Pro alto da montanha se dirigiu,
Em busca da flor da vida,
Lá escondida...
Vocabulário:
1- Absconsa = Lâmpada de dormitório de monges...
2- Embiocar= Esconder-se ,abrigar-se...
3- Fuxicar= Intrigar, fofocar...
4- Quera= Valente, destemido...
5- Quiçama= pequeno jacá...
6- Quimbembe= Casa rústica, choupana...
7- Xenxéms= Moeda do tempo do Brasil Império, que correspondia a centavos.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 22-11-2011
Faíscas de saudade
Ainda hoje,
Sorrateiro me abeiro daquela estação,
Só pra abrasado me envisgar,
Em caras lembranças de outrora,
Que teimosas acalentam
Meu caminhar.
Ah! O trem da juventude,
Que chacoalhando sobre trilhos,
Se desloca vagaroso,
Buscando preguiçoso chegar a algum lugar.
Aos solavancos,
Expelia abusadas faíscas de saudade,
Que penetrando as janelas do meu vagão,
Sempre chegavam lá!
Lá, onde se escondem recordações,
Que não quero revelar.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 4-12-2011
Chuvas de primavera
Sequiosa a terra do cerrado ressequida,
No cio, ansiosa espera as chuvas de primavera
Que inesperadas chegam copiosas
Encharcando o chão sedento
Que desesperado as acolhe,
Rapidamente, engolindo.
Como moça fértil,
O cerrado absorve sedento
O sêmen d’água do céu despejado
Pra saciar a libido dele efervescente,
Que quer parir frutos gostosos
E fecundar ligeiro
As recatadas sementes de flores rústicas,
No útero da terra escondidas,
Que anelam céleres desabrochar o encantamento.
Vislumbrando surpreendido
A delicadeza desse encantamento descrito,
Extasiado percebo
Que flores rústicas enfeitam,
Que frutos grosseiros lambuzando saciam,
Que chuvas de primavera emprenham o cerrado,
E que, depois,
Tudo se faz poesia...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 08-12-2011
Complementação
Quando até as coisas simples
perderam o sabor, subitamente,
você entrou na minha vida,
impregnando-a de alegria.
Aí, percebi que éramos um.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
São Paulo, SP, 18-10-1984
Inesperada Alegria
Chegou sem ser esperada.
Transpôs a parede das mágoas.
Desfez o medo do medo.
Limpou-me da incerteza.
Destampou a vasilha da minha ternura.
Agora, o desânimo é coragem.
A lágrima triste, sorriso de esperança.
A tristeza, alegria que se derrama.
A velhice precoce, juventude generosa.
Oh! alegria de ser alegre.
Meu canto é o teu encanto.
Minha força, tua esperança.
Teu regaço, meu repouso.
Teus olhos, meu caminho.
Tua voz, minha paz.
Ah! Eu pensei saber
quando não sabia.
Achei conhecer,
sem jamais ter vislumbrado.
Só sei que agora sou.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
São Paulo, SP, 18 de outubro de 1984
UM CONVITE PARA MARIA LUIZA
Revendo os caminhos palmilhados,
defronto-me com tua silhueta graciosa
a enfeitar a tessitura de minhas andanças
Recordei-me de belos momentos,
em que adentramos
por caminhos desconhecidos,
buscando o mistério das coisas.
Para mim, tua amizade era invólucro,
não chama que se apaga
ao suspiro da intriga.
Pois, amparados um no outro,
desvencilhamos empecilhos
impostos entre nós.
Só tergiversávamos acerca de nossas fragilidades,
postergando a solidão
que insistia em nos circundar.
Em meu exílio,
partilhamos
sonhos de esperança,
investindo na possibilidade
de acertar o caminho a ser trilhado.
Em jornal local,
utilizamos metáforas literárias,
exteriorizando a amizade tecida
na oferta do abraço consolador.
Chegamos a enfeitar
com guirlandas de lealdade
a travessia de nossas utopias.
Desafiamos a montanha
só pra contemplar
a beleza da flor lá resguardada
Há beleza demais,
no quadro da amizade,
que juntos pintamos.
Hoje, escondido,
no cerne de nossas recordações,
aguarda ansioso,
a conclusão do seu encantamento.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 21 de Junho de 2010
Um Retalho de Vida com Sabor de Eternidade
Na estrada sem fim das lembranças,
O espectro da minha juventude fluía,
Vazando pelo espelho cristalino das recordações,
Que ora percorria.
A imagem de um jovem se esboça,
Intensificando a fantasia,
Que extasiado manipulei,
Pleno de terna alegria.
Tez morena, bronzeada,
Como na época se exigia,
Nada de beleza helênica,
Mais com um curumim
Se parecia.
Cabelos negros,
Abundantes e lisos
Pela cabeça, até os ombros, escorriam,
Contrastando com alvos dentes,
Que sempre apareciam,
Quando um belo sorriso maroto,
Generosamente oferecia.
Exalando felicidade,
O dissipar da terna visão vislumbrei,
Só sei que era um retalho de vida,
Só sei que era vida saboreada,
Vida que jamais será esquecida!
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 26 de novembro de 2011
Há um estreito afeto entre a musa e o ancião poeta....
Com certa freqüência,
Me ponho à janela da reflexão
Ocultando, matreiro, a face brejeira
De ancião-criança,
Com uma máscara fingida de tristeza,
Pra tentar seduzir a desconfiada musa
Que atrevida, vez por outra, desaparece
Deixando-me a contar estrelas...
Ou melhor,
Porque não dizer,
A chupar todos os dedos
Lambuzados de saudade dela.
Saudade, tristeza,
Euforia ou alegria,
São excitantes hormônios da libido da musa
Que, de longe, sente o cheiro do poético cio,
Parecendo perceber o exato momento
Pra fecundar, com o terno hálito de inspiração,
Sentimentos ledos de lembranças
Resguardadas em lugar sagrado,
O útero imaginário do poetificar,
Onde se alojam agasalhados
Os, até então, adormecidos
Versos delicados do poeta ancião.
A arisca musa de meus versos
Se assemelha a um colibri assustado,
Que esvoaçando, chega inesperado.
Veloz, trisca astuto as perfumadas flores,
Pra sedento sugar delas o saboroso néctar,
Que lhe propicia alçar livre
O vôo da passageira alegria.
Saciado por instantes,
Bólido, num piscar de olhos,
Dali desaparece,
Pra logo em seguida,
De repente, retornar
Melancólico a ciciar...
Também a despudorada musa,
À parecença do aloprado colibri,
Toca, com delicada leveza, meu peito,
Transparente taça de cristal,
Mais fino que os da Bavária.
Ao mais sutil toque da musa,
Logo o cristal se espatifa
Em gotas de emoção,
Que lentas se transmutam
Em airosos versos
De “inenarrável ternura”.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 11 de Março de 2012
(Aniversário de 71 anos de REL Mendes)
Gotas de gentileza no varal das lembranças
No varal da minha memória,
Onde dependuro
Um universo polvilhado de recordações
Orvalhadas por gotas de gentileza,
Ainda posso vislumbrar
Muitas outras escondidas,
Que inquietas pululam ansiosas
Pra se transmutarem
Em airosos versos.
À semelhança das outras
Já poetizadas,
Cuidadosamente, também grato,
As recolho saborosas,
No mesmo lugar
Que as guardei outrora,
No acumular dos muitos anos,
Intensamente vividos...
Talvez ainda haja tempo,
Por de certo haverá,
De eu bordar com palavras
Mais algumas,
Só pra continuar a enfeitar de ternura,
Meu despretensioso caderno
Virtual de lembranças,
Transfiguradas em poesias...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 23 de Fevereiro de 2012
O perfil da minha juventude
Era uma criatura interessante,
Destituída de beleza helênica.
Sua pele era até marcada
Pela acne da adolescência.
Ah! Mas era dono
De um sorriso maroto,
Quase infantil.
Era portador de envolvente
Carisma de ternura.
Necessitava apenas
De um par de chuteiras
Para treinar.
Todo o seu ser
Transbordava alegria e esperança.
Manipulava as dificuldades
Com destreza e humor.
Vislumbrava suas metas
Com tranqüilidade e segurança.
Não queimava etapas
Para atingir sonhos...
Era lúcido ao explicitar
Suas necessidades...
Totalmente, centrado
No momento que vivia.
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 17-09-2007
Segredo revelado
Como ave de rapina,
De cima te avistei.
Muitas vezes retornei...
Subistes o barranco.
Cumprimentando-me,
Entrastes no carro.
Falante, expusestes teus sonhos.
Descrevestes teus anseios.
Trocamos idéias
A noite inteira.
Não nos tocamos!
Apenas nos desejamos.
Amanhecia quando nos despedimos...
Sem macular o mágico momento,
Não ocorreu ainda que
Um aperto de mãos.
Os encontros se sucediam
Com freqüência.
Não nos tocamos!
Soa a campainha!
Atendo.
Eras tu!
Pedistes água com um sorriso maroto.
Dei-te também meu coração.
Inquiristes-me, numa tarde de domingo:
“Amas, alguém?”
Amo! Só não lhe revelei quem.
Profunda tristeza cobriu-lhe a face.
Partiu sem saber que a amava.
Nunca mais a vi.
Só sei que a amei,
Talvez como a ninguém...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, 26-08-2007
Um ancião peregrino montou, em Vinhedo, a tenda dele...
(Mt 5,14-16)
Cantar em versos
Lembranças de amizade
É desnudar a gratidão sentida
Pela vida do bom amigo,
Tesouro divino,
Com o qual Deus um dia me agraciou
Na longa travessia da estrada da vida,
Por mim, ainda hoje, percorrida...
Não se pode esconder a luz,
Que discreta esplende do gentil amigo,
Pois grato, dela sempre desfruto
Pra alumiar o caminho da própria conversão,
Que persistente persigo,
No transcorrer do cotidiano
Prudentemente vivido...
No meu amigo não há dolo.
Nele, nada de humanos desvarios,
Já que desconhecem o reto caminho.
É o bom amigo de muitos,
Sempre transborda de santa alegria
E é pródigo na caridosa arte do acolhimento.
No silêncio, partilha com Deus
A dor do amigo sofrido,
Que, por algum motivo,
Perdeu os melódicos acordes
Da vida por dom recebida...
Habilidoso,
Dá uma cadência serena aos aborrecimentos,
Dissipando-os com a paciência,
Que desde jovem burila,
Através da escuta, da obediência, da oração
E, na cela, o santo intelectual burila,
Com límpido discernimento,
Vivenciando-os no cotidiano,
Depois de extraí-los da Santa Regra de Bento.
O justo abade Joaquim,
Ofício, no mosteiro, da comunidade o maior servidor,
Agora, emérito e sábio ancião peregrino,
Prossegue generoso cultivando as amizades
Que durante o longo e fecundo trajeto, amealhou.
À sombra dessa continuada amizade,
Carinhosamente, por mim, chamada relva de ternura,
Encontro, ainda hoje, como também tantos outros,
A referência segura pra eu permanecer
No tão decantado reto caminho do Amor...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 26-02-2012
Uma humana referência de ternura...
(Mt 4,18-22)
Pelo Amor
Um dia escolhido,
Aderiu ledo
Ao divino chamado,
Pra percorrer confiante o caminho
Que capacita a ser de Deus
Um bom servidor...
O outrora, jovem missionário,
Espanhol da Galícia,
Hoje, sábio padre ancião,
Ainda prossegue contente
A espargir, sem avareza, ternura
Com um simples aceno de mão
E a todos vai acolhendo sem distinção:
-Aos pobres, trata como pai,
-Aos ricos, como irmãos.
-Mas declarado expressa
Grande predileção,
Pela Santíssima Virgem Maria,
A quem ama de todo coração.
Quer conhecê-lo?
Vem e vê...
É capelão do Carmelo,
Onde oficia o Santo Pascal Mistério.
Homem generoso,
Cristão todo Jesuíta,
Quase catrumano!
Um dos tesouros da Igreja,
Bem escondido no sertão...
A passos largos, ainda hoje,
O bom servo peregrina,
Se consumindo no Amor,
Na certeza, de que um dia,
Habitará na Morada Divina...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 05-02-2012
Desencontro
No circular rápido da moto
Saboreio o vai e vem
Dos veículos.
Na esquina à direita,
Interessante figura
Me desperta atenção!
Observando-a,
Por instantes...
Sou correspondido!
Com sôfrego desejo declarado,
Me-analisa.
Permaneço estático!
Arranquei a moto...
Momentos após me ordeno:
“Retorne por onde veio,
Em busca da criatura”.
Pena!
Já não estava lá...
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
Montes Claros, Minas Gerais, 21-09-2007
